Liga da Justiça: renascimento e esperança

Os bastidores do DC Extended Universe

 

Darkseid pode ser uma grande ameaça, mas o maior vilão mesmo do universo DC é a aparente falta de planejamento da Warner com suas produções. Após o fim da aclamada trilogia do Batman de Christopher Nolan, o estúdio lança “O Homem de Aço” de Zack Snyder em 2013 que, mesmo com a recepção morna por parte da crítica, foi o suficiente para um sinal verde do desenvolvimento do DC Extended Universe. A Warner então anunciou um calendário de filmes até 2020, um ambicioso projeto em resposta ao já consolidado Marvel Cinematic Universe. O estúdio prometia filmes com grandes diretores e com mais liberdade criativa.

“Batman vs Superman” chegou aos cinemas e foi simplesmente detonado pela crítica. Sua recepção fez com que a Warner refilmasse “Esquadrão Suicida” para deixá-lo menos sombrio. O resultado foi um estrago ainda maior com a crítica e o público. Por sua vez, “Mulher-Maravilha” foi muito bem recebido e também foi a produção menos envolvida em polêmicas e rumores do estúdio. Mas enquanto a princesa Diana conquistava o sucesso nas bilheterias de todo o mundo, os bastidores de “Liga da Justiça” estavam bem agitados.

O diretor Zack Snyder se afastou da produção por conta de uma tragédia familiar e deixou nas mãos de Joss Whedon (diretor de “Vingadores” e “Vingadores: A Era de Ultron”) a missão de finalizar o filme. A partir de então todo dia havia um rumor diferente. Refilmagens, personagens cortados, mudanças na composição da trilha sonora, o bigode de Henry Cavill… Toda essa carga negativa trouxe desconfiança para o resultado final. Ao que tudo indica, a Warner não soube reagir bem as críticas de BvS e desde então suas decisões acabaram criando uma avalanche de problemas ainda maiores. A imagem dos filmes da DC ficou abalada e os pontos fracos de “Liga da Justiça” são claramente consequências de toda a novela dos bastidores da produção.

 

 

 

⚠️ Atenção! Zona de spoilers! ⚠️

 

Liga da Justiça

 

Um filme feito por dois diretores distintos, cheio de personagens para apresentar e com a exigência do CEO da Warner para que o longa tivesse menos de duas horas… É quase um milagre que apesar de tudo “Liga da Justiça” consiga ser bom! A clara mudança de tom deixou o filme mais leve e palatável para o grande público e ainda assim manteve a identidade da DC no cinema.

Um homem com demonstração de ódio a uma imigrante, a Mulher-Maravilha (Gal Gadot) lutando contra terroristas em Londres (reflita bem o peso dessa cena), Batman (Ben Affleck) discutindo com Aquaman (Jason Momoa) sobre o derretimento de calotas polares. Liga ainda alfineta problemas atuais do nosso mundo, mas o filme não se perde em filosofar essas questões e simplesmente segue em frente dando um momento para cada personagem até a sua reunião. O roteiro acerta em balancear o tempo de tela de cada integrante da equipe e em definir suas personalidades. A química do grupo é excelente e o filme cresce quando estão todos reunidos. As interações que cada um têm com seus parceiros parece crível.

Quanto ao ritmo, não há nenhum momento ocioso, mas fica a sensação de que detalhes importantes da trama não foram muito bem desenvolvidos. A metáfora dos parademônios atacarem a humanidade por conta do medo causado pela falta de esperança após a morte de Superman é boa, mas isso é mostrado em pequenas cenas e diálogos rápidos que não permitem uma sensação de peso adequada. No próprio retorno do Homem de Aço não é apresentado o impacto da sua ressurreição para o mundo que andava tão triste com sua ausência. O desenvolvimento de alguns personagens também é prejudicado por conta do ritmo acelerado. Outro problema do filme é o CGI que destoa de outras obras de Zack Snyder. O bigode removido de Henry Cavill causa estranheza, assim como a desnecessária caracterização digital do Lobo da Estepe.

As cenas de ação de Liga são empolgantes, provavelmente mérito de Snyder. Porém, as mudanças de tom para tornar o filme mais colorido deixam tudo mais carregado e sem harmonia em alguns momentos.

A trilha sonora de Danny Elfman funciona, apelando para a nostalgia com o tema clássico de Batman de Tim Burton e fazendo referência ao tema da série “Flash” da CW criado por Blake Neely, embora não seja tão marcante como a trilha de BvS criada por Hans Zimmer e Junkie XL (afastado da produção por Joss Whedon).

O flashback da primeira Era dos Heróis e a última cena pós-crédito expandem e muito o DCEU!

 

 

Lobo da Estepe

 

É quase unânime que o Lobo da Estepe (Mance Rayder) é o principal ponto fraco de “Liga da Justiça”. Suas motivações são extremamente rasas, no entanto sua função de movimentar a trama é bem atendida. Para os fãs familiarizados com o universo DC fica claro que sua participação na história é apenas um prelúdio para a verdadeira ameaça que é Darksied (citado pelo próprio Lobo da Estepe), mas para o público geral fica apenas a imagem de um vilão com motivações genéricas e isso é um grande erro do filme.

 

 

Batman

 

Batman não está tão pesado e sombrio como antes, mas seu bom humor é pontual. Seu personagem tem momentos de grande profundidade, como a culpa que carrega em achar que matou o Superman e sua disposição para se sacrificar ao enfrentar os parademônios. Desde BvS, as cenas solos do Morcego de Gotham são ótimas e em Liga não é diferente, mostrando que o “The Batman” de Matt Reeves tem que ser prioridade da Warner.

 

Mulher-Maravilha

 

Gal Gadot brilha mais uma vez como a princesa de Themyscira. Seu arco é o mais simples da trama. Diana salva pessoas de forma anônima e, após uma discursão com Batman e o combate final com o Lobo da Estepe, no final decide inspirar esperança assim como o Superman.

 

Flash

 

O alívio cômico do filme, Erza Miller traz carisma suficiente para nos deixar ansiosos por “Flashpoint”, seu prometido longa solo (que talvez não tão solo assim). Em Liga, o velocista escarlate ainda é inexperiente e é responsável pelos momentos mais leves da história, apesar do drama pessoal com o seu pai.

 

Aquaman

 

O badass da equipe tem seu desenvolvimento prejudicado pelo ritmo da história. Seu drama em Atlântida é o mais solto e desconexo do longa, sendo um pequeno preview para seu filme solo previsto para 2018. Apesar disso, Jason Momoa convence como Aquaman e agora será impossível escutar “Icky Thump” de The White Stripes e não lembrar do herói. Liga acerta em aproveitar as clássicas zoeiras com o personagem e ainda assim não o diminui.

 

Ciborgue

 

Apesar do pouco tempo de tela, o ator estreante Ray Fisher entrega um excelente personagem. Ciborgue tem uma profundidade que o torna marcante e seu tom de voz mostra o peso do drama em aceitar sua condição. Seus poderes apresentam soluções criativas na trama, como a sua rápida descoberta da identidade do Batman e o seu diálogo remoto com a Mulher-Maravilha. Seu “booyah” foi um ótimo fan service!

 

Superman

 

Desde “O Homem de Aço” podemos acompanhar um enorme arco do Superman. Seu nascimento no primeiro filme, sua morte em BvS e agora seu renascimento em Liga. Sua mudança se assemelha a esse novo momento do DCEU, agora mais colorido, leve e sorridente. Superman agrada, sendo o destaque do longa e também um dos seus maiores acertos.

 

 

 

Renascimento e esperança

 

“Liga da Justiça” é bom, diverte e o tom mais leve e ágil da trama podem simbolizar um renascimento da DC no cinema. Embora a imposta duração do filme e a troca de diretor tenham prejudicado claramente a produção, fica a esperança de que, agora que os personagens principais já estão bem estabelecidos, seja mais simples para a Warner planejar seu universo compartilhado de heróis e tropece menos nas suas pretensões e decisões. Liga pode não ser um filme perfeito, mas aponta para um bom futuro do DCEU, caso a bilheteria permita sua existência.

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